• Elaine Aliaga

Quando não podemos nos calar

Existem alguns comportamentos, pensamentos e “brincadeiras” que não devem mais ser tolerados. Não cabem mais preconceito de raça, cor, religião, comentários depreciativos. Se você ainda não entendeu é porque não quer entender. Para você, gostaria de dizer que é uma pessoa cujo destino é ser tolerada pelos que a amam muito, já pelos que não a amam tanto assim será isolada.

Pobreza de espírito tem limite!

Feito o desabafo, queria dizer que tudo tem jeito nesta vida e uma mente aberta, se já não veio de fábrica, pode ser construída por meio de leitura.

Se existe algo que eu sempre defenderei e carregarei como bandeira é a leitura. Está feito o convite: leia, por meio da leitura nos tornamos mais sensíveis e empáticos à realidade dos outros.

Reproduzindo um pensamento que publiquei em um artigo alguns anos atrás, ler “desenvolve a imaginação e a criatividade; aumenta nosso vocabulário e fluência na escrita; faz-nos pensar sob outros pontos de vista e refletir sobre diversos assuntos, tornando-nos, assim, pessoas melhores; relaxa; aumenta a concentração; melhora a memória; e por aí vai, a lista é longa. Dá para falar o dia inteiro sobre o quanto ler é bom e faz bem…”

Ler é um remédio abençoado para combater a ignorância e, o melhor, não tem contraindicação.

Acabo de concluir a leitura do livro Eu sei porque o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou, e não consigo imaginar como as pessoas sejam capazes de se manterem insensíveis a questões raciais lendo relatos como o da autora.

Maya Angelou sofreu na pele, negra, a dor de ser tratada como inferior, os abusos e dissabores que uma branca de classe média como eu consegue apenas imaginar vagamente.

E como um livro nunca termina na conclusão de sua leitura, ainda tenho o documentário sobre a autora para assistir no Netflix... Desejo conhecer ainda mais sobre esta mulher forte que se reinventou e encontrou na literatura uma forma de salvação.

É preciso lembrar (e esta é a mensagem final) que, como disse a senhora Angelou: “O preconceito é um fardo que confunde o passado, ameaça o futuro e torna o presente inacessível”. Não se cale diante de atitudes preconceituosas, porque isso seria compactuar com elas.



Abaixo uma das mais conhecidas poesias da senhora Marguerite Ann Johnson (Maya Angelou), em tradução de Francesca Angiolillo, parte integrante do encarte que acompanha o livro de setembro de 2018 da TAG:


Ainda assim me levanto
 
Você pode me inscrever na história
Com as mentiras amargas que contar
Você pode me arrastar no pó,
Ainda assim, como pó, vou me levantar.
 
Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu caminho como se tivesse
Petróleo jorrando na sala de estar.
 
Assim como a lua ou o sol
Com a certeza das ondas no mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar.
 
Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído,
Ombros curvados como lágrimas,
Com a alma a gritar enfraquecida?
 
Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal
Só porque eu rio como se tivesse
Minas de ouro no quintal.
 
Você pode me fuzilar com palavras
E me retalhar com seu ódio
Ainda assim, como ar, vou me levantar.
 
Minha sensualidade o agita?
Você, surpreso, se consterna
Ao me ver dançar como se tivesse
Diamantes entre as pernas?
 
Das choças dessa história vergonhosa
Eu me levanto
De um passado que se ancora doloroso
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e irrequieto
Indo e vindo contra as marés me elevo.
 
Esquecendo noite de terror e medo
Eu me levanto
Na luz nunca tão clara da manhã bem cedo
Eu me levanto
Trazendo os dons dos meus antepassados
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.
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