• Elaine Aliaga

O que estamos fazendo com nosso tempo?

Por aqui, oitenta e dois dias de isolamento social. Pouco tempo para o ócio, muita ansiedade, mas, também, muita reflexão.

Houve dias em que o desânimo tomou conta, em outros o otimismo se apoderou. Algumas horas duraram dias e alguns dias poderiam ser resumidos em um minuto. A sensação de que vivo um dia que nunca termina é imensa.

Pareço estar em uma montanha-russa que nunca termina e eu odeio montanhas-russas...

Descobri que jabuti boceja, que a dor do outro pode ser vivenciada como minha, que não sou capaz de fazer tudo e que preciso de ajuda, mas muito ajuda aquele que não atrapalha. Percebi que minha filha merece que eu seja ainda melhor e, para tal, a minha criança precisa ser acolhida em primeiro lugar, pois só assim eu poderei ser mais do que sou hoje. Que eu preciso me perdoar, acima de tudo. E tudo isso só na subida lenta da montanha-russa, a descida já começa a me embrulhar o estômago e ainda nem cheguei a ela.

Quantos loopings a montanha-russa da quarentena ainda vai dar ninguém sabe.

Minha única certeza é a de que preciso da literatura para me manter sã. Ela tem sido meu ponto de equilíbrio, e não é só no isolamento não, é na vida.

E já que falei de literatura, faço um convite para pensarmos sobre o tempo com um poema de Mario Quintana:


O TEMPO

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mario Quintana

(Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-tempo-poema-de-mario-quintana/ Acesso em: 5 de junho de 2020.)

É urgente dar menos atenção ao TikTok e mais ao tic tac do relógio, porque o tempo não perdoa e a vida é agora.



Recordando...

Não são poucas as lembranças que me invadem nesta quarentena. Como o dia em que visitei a casa de uma amiga em Porto Alegre, há dez anos atrás, e juntas fomos à Casa de Cultura Mario Quintana.

O hotel Majestic, local que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana, estava decadente e prestes a fechar as portas quando hospedou o poeta, de 1968 a 1980. Restaurado, o prédio abriga acervo sobre o poeta, com direito à reprodução do quarto onde ele viveu.


Esta foto de Quintana, com cabelinhos espetados, faz-me lembrar meu avozinho.


Posando para foto na janela do prédio.



15 visualizações
  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon
  • E-mail